Sete chaves para uma encíclica urgente
Sete chaves para uma encíclica urgente
A reportagem é de Daniel Izuzquiza, SJ e publicada por EntreParentesis, 18-06-2015. A tradução é de André Langer.
[1] A chave científica. Antes de ser publicada, a encíclica e o próprio Papa foram duramente criticados por setores conservadores,
sobretudo norte-americanos, querendo aplicar a ela o dito popular ‘sapateiro,
aos teus sapatos’. Sem ler o texto, já estavam dizendo que havia erros
científicos, que o Papa não sabe de
questões científicas e não deve se meter em questões polêmicas. Pois bem,
qualquer Papa em qualquer
encíclica consulta diversos especialistas, como aconteceu também neste caso. A
análise de situação que o texto recolhe baseia-se, de maneira clara, nos
consensos científicos do momento.
[2] A chave
ético-filosófica. Embora no
campo científico a exposição seja comedida, a encíclica contém uma crítica dura
e contundente ao “paradigma tecnocrático
dominante” (n. 101). Não porque a ciência e a tecnologia sejam
más, mas porque “a humanidade de fato assumiu a tecnologia e seu
desenvolvimento junto com um paradigma homogêneo e unidimensional” (n. 106). É
que, além disso, “o paradigma tecnocrático também tende a exercer seu domínio
sobre a economia e a política” (n. 109). Por isso, estamos “diante da urgência
de avançar numa corajosa revolução cultural” (n. 114) que permita superar a
“grande desmedida antropocêntrica” (n. 116), sem cair no biocentrismo nem
“colocar em um segundo plano o valor das relações entre as pessoas” (n. 119).
[3] A chave política também é importante para ler a encíclica, que quis
ser apresentada com suficiente tempo antes da Cúpula do Desenvolvimento
Sustentável, em setembro de
2015, e a Cúpula sobre a Mudança Climática, em dezembro deste mesmo ano. A avaliação global é
clara e negativa: “as cúpulas mundiais sobre o meio ambiente dos últimos anos
não corresponderam às expectativas, porque não alcançaram, por falta de decisão
política, acordos ambientais globais realmente significativos e eficazes” (n. 166).
[5] A chave cultural. Esta chave desdobra-se em ao menos três assuntos,
que somente podemos esboçar. Primeiro, “não se pode excluir a cultura na hora
de repensar a relação do ser humano com o meio ambiente” (n. 143), vinculando
as ameaças à biodiversidade com os ataques à diversidade cultural, sobretudo
das minorias empobrecidas.
[6] A chave
teológica. Embora a
encíclica esteja dirigida a todas as
pessoas, crentes ou não (e esta é outra novidade), há nela um
desenvolvimento explicitamente teológico. Após o primeiro capítulo dedicado “ao
que está acontecendo em nossa casa”, o Papa dedica o segundo capítulo a
desenvolver o Evangelho da criação: “a criação só se pode conceber como um dom
que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo
amor que nos chama a uma comunhão universal” (n. 76). A partir daqui se
recupera o sentido da gratuidade e da contemplação, o destino universal dos
bens e a responsabilidade no cuidado da criação, entre outras implicações
básicas. “Tudo está interligado, e isto convida-nos a amadurecer uma
espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade” (n.
240).

Falará depois de gratuidade e gratidão, de sobriedade,
de humildade, de paz e de outras “sólidas virtudes” (n. 211). É curioso e
significativo que a encíclica termine com duas orações (n. 246), uma para todos
os crentes e outra específica para os cristãos. Está em consonância com os
destinatários da carta, pois já no começo da encíclica o Papa diz: “quero dirigir-me a cada pessoa que habita neste
planeta” (n. 3). Oxalá, cada pessoa possa escutar esta mensagem urgente e
comprometer-se com o cuidado de nossa casa comum.
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